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Língua: um bem de todos
 


Deslizes de celebridade

Começo pelo óbvio, e gostaria que esta posição ficasse clara: erro de grafia é erro. As gramáticas e todos os instrumentos que se destinam a assegurar o cumprimento das regras de grafia - que, no nosso caso, são estabelecidas em lei - explicam quais as regras a seguir: quando se usam maiúsculas, hifens, ssscxccx, hgjtil, cedilha etc. Portanto, quem escreve "sena", referindo-se à cena de filme, novela ou peça teatral, cometeu um erro.

Dito isso, é preciso pensar sobre o que significa cometer um erro, em geral considerado evidência de pouca instrução, mas quase nunca analisado criteriosamente, para entender o quanto a relação entre letras e sons é complexa e quais os fatores que os condicionam. E sobre a verdadeira mania (escolar e social) que é a caça aos erros. Mais cruelmente, a caça às pessoas que cometem lapsos previsíveis e são tachadas de ignorantes ou disléxicas. 

São numerosas e demoradas as discussões sobre grafia. As comissões de especialistas consomem décadas para produzir uma proposta de sistema de escrita. Por que será que quase analfabetos se sentem autorizados a julgar a capacidade de pessoas que cometem erros ortográficos, sem demonstrar competência para a análise do sistema de escrita, análise que poderia explicar a natureza e a razão do erro, mostrando, muitas vezes, que se trata de problema banal, que uma canetada pode resolver? Consideremos o caso Sasha: a filha de Xuxa informou, pelo microblog twitter, que ia filmar uma "sena". Uma multidão de seguidores saiu a campo desqualificando a inteligência da menina pela troca de c por s. O curioso é que nenhum dos que se manifestaram se preocupou em analisar o grau de sofisticação intelectual que se exige para ser seguidor ou leitor das mensagens de Xuxa!

O caso Sasha
No episódio, o grave é que: 

a)  Xuxa (e Sasha) avise ao mundo sobre o que faz e deixe de fazer; 
b) numerosas pessoas (soube que foram 70 mil!) "altamente inteligentes (!)" leiam tais recados;
c) se deem ao trabalho de comentá-los; 
d) dado um erro, todos se arvorem em analistas da língua (sem se darem conta de que são o mais claro testemunho de que a coisa vai mal). Ah, havia UM erro de grafia no recado de Sasha! O resto estava certo - e ninguém viu.

Observem que não incluí "sena" entre as coisas graves. Porque um erro dessa ordem não é grave na escrita de pessoa dessa idade e experiência. Mas não é erro? É. Mas não grave. A avaliação da gravidade deve considerar um conjunto de critérios: idade e grau de escolaridade do escrevente; complexidade da relação som/letra; frequência da palavra; interferência da pronúncia (localidade, idade etc.). E nem menciono as possibilidades de segmentação alternativas que ocorrem em função de outros fatores (como juntar "ser humano" ou "se acha" em "serumano" e "siacha", casos explicáveis!).

Um termo como "cena" não oferece dificuldade. Bem menos que "exceto", "salsicha" ou expressão que antes tinha, agora não tem ou talvez continue tendo hífen. O erro de Sasha não ocorre em segmento com pronúncias variáveis ("menino" pode provocar grafias como "mininu"; "maldade" vira "maudade"). Como está filmando (talvez o erro seja este!), o termo "cena" deveria ser-lhe familiar (mas nunca se sabe!). Ou seja: a palavra é fácil, boa para condenar o escrevente, para divertir-se com seu erro, mesmo se ele for uma criança. 

Houve muitos equívocos na avaliação do episódio. Bom exemplo é o de Ruy Castro (Folha de S.Paulo, 5/9/09), que escreveu que Sasha "queria dizer 'cena'". Ora, ela não queria dizer, ela queria escrever "cena" (afinal, "cena" e "sena" são ditas do mesmo jeito). O erro de Castro é mais grave que o de Sasha, até porque ele tem mais de 11 anos! 

Nossa cultura dá valor excessivo à grafia, elevada a símbolo de domínio da língua. Mas, a rigor, erro de grafia nem é erro de português. É só de escrita, desobediência a uma lei que não é lei da língua, tanto que pode ser alterada pelo governo. É de natureza diferente dos erros de sintaxe ou de semântica. Graves mesmo são textos precários ou sem sentido. Se consultarmos textos de várias épocas, veremos que são grafados de maneiras diferentes. Poderíamos tratar os textos grafados de forma "ilegal" da forma como tratamos os de outras épocas: como textos que precisam de revisão. O erro de grafia não é, por si, prova de falta de domínio da escrita. É sintoma, não se pode duvidar. Mas não é a verdadeira doença.

A consulta a livros que analisam escritas populares mostra que a diversidade de escrita não impede o exercício de muitas das funções da linguagem. Em especial na escola, seria necessário clareza sobre as razões que levam a erros de grafia. Há razões linguísticas para eles. Muitas são ligadas à inconsistência do próprio sistema ortográfico (como diversas grafias do fonema /s/). Outras são ligadas à variação linguística (como as que levam a ter problemas para decidir entre "mau" e "mal"). Mas há diversas interpretações de "unidades de fala", cuja análise está longe de ser óbvia a quem não domina o léxico erudito e referências culturais mais sofisticadas do que as disponíveis na escola e na TV.

Os professores deveriam ser capazes de entender de onde vieram os erros. Assim, seria mais fácil decidir como proceder para evitá-los. Se um aluno escreve "táquissi" ou "séquisso", não basta rir ou mandar corrigir. Seria bom compreender que se trata de fato relativo à pronúncia de sílabas terminadas (na fala) em oclusivas (sek-so, tak-si), que são acrescidas de vogal (e que explica porque dizemos "futebol" e "esnobe", não "futbol" e "(e)snob").

Sírio Possenti é professor associado do departamento de linguística da Unicamp e autor de Os humores da Língua (Mercado de Letras)



Escrito por Prof. Jair Barbosa às 11h36
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