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Língua: um bem de todos
 


Caros alunos e amigos,

Há muito tempo penso em fazer um blog para propagar ideias e conteúdos importantes sobre a língua portuguesa. Em função do meu restrito tempo, adiei isso bastante, mas agora vamos sair das ideias...

Em primeiro lugar, quero explicar o título deste blog. Diferentemente do que é recorrentemente veiculado na mídia, não entendo a língua como um bem de poucos, de alguns "iluminados" que a conhecem de modo profícuo a ponto de humilhar a nós, probres mortais, com "todas" as regras na ponta da língua. Para mim, a língua é um bem que pertence a toda a sociedade - do analfabeto ao doutor. Sob este aspecto, há de se considerar que as línguas variam, que não existe forma de falar melhor que outra, tampouco que há línguas primitivas, pobres, erradas, feias... São todos julgamentos sem qualquer fundamento científico, portanto, infundados. Sua base são os preconceitos social e linguístico, por consequência.

Destarte, todas as formas de uso da língua têm a sua validade dentro da sociedade e devem ser respeitadas. Com isso, não defendemos que não se precisa aprender a variante padrão da língua, aquela pregada pela escola. A chamada norma-padrão é detentora de grande prestígio social, é papel da escola ensiná-la, porém constitui uma  dentre tantas outras possibilidades de uso da língua.

Assim, não é a gramática escolar ou os gramáticos que vão impor o modo de usar língua, mas sim o seu contexto de uso. Se nos dirigimos a pessoas com as quais temos intimidade, naturalmente falamos de modo mais espontâneo, sem artificialismos; se estamos apresentando um seminário ou dando uma entrevista, procuramos atingir o nosso público-alvo e, portanto, temos que adequar a nossa forma de falar a esse público; se estamos no MSN com nossos colegas de trabalho ou de classe, certamente, tornar-se-ia ridículo usar uma mesóclise ou mesmo escrever por extenso todas as palavras, uma vez que o estilo deste importante meio de comunicação visa à rapidez e à informalidade.

Portanto, meus caros, a língua é nossa! É viva, dinâmica como a sociedade o é. Não cabe em camisa de forças. Porém, como nos ensina o filólogo Evanildo Bechara, "devemos ser poliglotas na nossa própria língua", ou seja, devemos ser usuários competentes, termos clareza acerca do que falamos e, sobretudo, entendermos que em cada situação devemos nos comportar linguisticamente diferente, como, aliás, já fazemos, por exemplo, com a nossa vestimenta. O acesso a essa competência tem como mecanismo mais eficiente a leitura.

É isso!

 

Um abraço,

 

Jair Barbosa



Escrito por Prof. Jair Barbosa às 16h59
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O desvio da concordância

A falta de harmonia entre as flexões de um enunciado deixa de ser atributo de pessoas com baixa escolaridade, e muitos já a toleram na língua falada

Edgard Murano

Questionado sobre a sobreposição dos pronomes "tu" e "você" em seus textos, Nelson Rodrigues certa vez disparou: "Não acredito em brasileiro sem erro de concordância". Hoje, à luz dos mais recentes estudos sobre a língua, aquilo que o dramaturgo chamava de "erro" passou a ser considerado, antes, sinal de influência da fala sobre a escrita, não mera desobediência à gramática. Mas ainda incomoda muita gente.

Ao pé da letra, o que chamamos "concordância" é o princípio sintático segundo o qual as palavras dependentes umas das outras numa frase se harmonizam nas suas flexões. Adjetivos, pronomes, artigos e numerais concordam em gênero (feminino e masculino) e número (singular e plural) com os substantivos, numa "concordância nominal". Já o verbo concorda com seu sujeito em número e pessoa. É o que gente do ramo chama de "concordância verbal".

A questão, no entanto, é que a falta de concordância parece ter deixado de ser mero sinal de desvio gramatical ou de baixa escolaridade, e é duvidoso que em algum momento tenha sido atributo exclusivo das camadas mais pobres do país.
A evidência empírica dessa constatação é relativamente recente, mas categórica. O professor Ataliba de Castilho, da USP, foi um dos artífices do projeto Norma Urbana Culta (Nurc), que gravou 1.500 horas de falas em cinco capitais brasileiras, entre 1970 e 1978. A partir desse corpus de pesquisa, Ataliba e uma equipe de especialistas chegaram ao século 21 tendo percebido que muito do que se prega sobre concordância não passa de mito, marcado por artificialidades e juízos de valor.

Lapso
Segundo Ataliba, a ideia de que o verbo concorda com o sujeito nem sempre se aplica, mesmo pela elite bem formada no idioma.

- Na linguagem falada culta, o sujeito concorda quando vem antes do verbo. Quando vem depois, não ocorre com frequência. Se o verbo está no começo da sentença e o sujeito, no fim, com muitas ideias entre um e outro, ela não se observa.

O brasileiro, sugere Ataliba, tende a falar "chegou" e não "chegaram" num exemplo como: "Chegou, depois de muita espera, reclamação e teimosia de minha parte, os exemplares do jornal que eu estava esperando".

- Mesmo a pessoa culta já cancela esse tipo de concordância em uma conversa - constata o pesquisador.

Categórico
O professor acredita ser impossível postular regras de concordância categóricas para a variante brasileira do idioma.
Encarando só o fato semântico, nada no sistema do idioma impediria a flexibilidade na concordância em situações de comunicação informal. Se alguém diz, numa conversa, "os menino saiu" ou "os meninos saíram", o significado é o mesmo, não muda. Ocorre que, no português escrito e baseado na norma, a concordância se dá de forma repetitiva em quase todo elemento; mas, no registro oral, a regra costuma ser mais econômica e flexível. Na forma tida como "popular", em "os menino saiu depressa", só o primeiro elemento (o artigo "os") está marcado pelo plural.

Para Ataliba, em outras línguas esse procedimento já virou padrão. O francês culto passou a pôr plural só no artigo, não em todas as formas da sentença. Incorporou a regra popular e hoje é comum dizer que "les homme froid" ("os homem frio"). Em inglês, não há espanto se alguém pronuncia "the bad boys" (os meninos mau). Vários casos do gênero se instauraram mesmo nas variantes escritas em idiomas do mundo inteiro.

Os problemas envolvendo concordância talvez sejam o mais evidente exemplo brasileiro de que um idioma é, acima de tudo, fato social: mesmo quando linguisticamente o "erro" não contraria a índole da língua, mesmo se há evidências de que o brasileiro cancela a regra em sua fala, é alto o peso social no modo como os falantes encaram o problema.

Para Maria Helena de Moura Neves, do Mackenzie e da Unesp de Araraquara, muito do que se diz sobre concordância em cartilhas e manuais é posto só em termos de regras a ser obedecidas.

- Há um conjunto de normas instituídas que regem o domínio do que se considera a "norma padrão". E em poucos casos são admitidas realizações variantes - diz a professora.

Com deslizes de concordância não parece haver distinção de classe e nem seria preciso puxar a memória para lembrar José Sarney, presidente do Senado, em um de suas defesas no episódio dos atos secretos, nomeações e gastos na calada da noite, sem assinatura oficial. "Não há atos nenhum que não estão na rede", emendou o senador.

Registro oral
Um escorregão gramatical de uma figura pública ganha relevo, muitas vezes desproporcional ao tropeço. Mas equívoco como o de Sarney, escancarado em jornais de grande circulação, ilustra como são maleáveis as regras de concordância na fala, em relação às impostas pela escrita.

Segundo Maria Luiza Braga, professora de linguística da UFRJ, a probabilidade de que essas "falhas" ocorram é maior no registro oral do que no escrito.

- A escrita tem mais prestígio. Quando você escreve um documento, por exemplo, é algo permanente, e você controla o que escreve, pois tem mais tempo para adequar sua produção linguística às regras gramaticais - justifica.

A pesquisadora vê na fala um terreno propício à falta de concordância, sobretudo em situações-limite como a do político que se defende publicamente de acusações.

Instabilidade
Gramáticas normativas dizem que o verbo deve concordar com seu sujeito. Porém, mais de um fator intervém na regra, a maioria ligada à relação do falante com o que é enunciado. Maria Helena cita três circunstâncias em que a concordância é ameaçada:

1) Sujeito posposto - Quando vem primeiro o verbo e, mais adiante, o sujeito, há independência maior da forma do verbo em relação à forma do sujeito, o qual só depois é expresso pelo falante. "Na ocasião também foi comemorado os 28 anos da agência gaúcha." "Foram recolhidos o que sobrou da explosão."

2) Distância entre verbo e sujeito - Com o desligamento formal entre os dois componentes, fica criado um ambiente propício a uma concordância mais ligada à ideia do que propriamente à forma.
"A nova geração de jovens de nível universitário da década de 1950 acreditou que a canção tradicional tinha esgotado as suas possibilidades, e partiram para a reformulação de inspiração jazística do samba, que se chamaria bossa-nova."

3) Marca de singular num sujeito plural - Pode sugerir um singular para o verbo, isto é, a quebra de uma regra de concordância leva à quebra de outra: "Meus irmãos sabe."

Neste caso, diz Maria Helena, o processamento natural da linguagem leva o falante a marcar o plural na primeira palavra, desobrigando-o de marcá-lo nas seguintes.

- Ainda é frequente encontrarmos em falas que não possuam concordância até duas marcas seguidas de plural, e essa marcação dupla ocorre se essas duas primeiras palavras funcionam em bloco [(os meus) irmão]. Para o falante, com a primeira marca de plural, o recado sobre o número gramatical já está dado - explica Maria Helena.

Distâncias
Para o dicionarista Francisco Borba, da Unesp de Araraquara, quanto maior a quantidade de termos e intercalações a separar sujeito e verbo numa oração, maior a ausência das marcas de concordância.

- Esses expedientes sintáticos que dão coesão e disciplina gramatical, eles vigoram na língua escrita, que é mais disciplinada. Quando a pessoa está falando, e está fazendo um sujeito composto longo demais e depois põe o verbo, isso pode atrapalhar. Quanto mais comprida a sequência e mais distante o sujeito do verbo, maior a possibilidade de haver um lapso, de não combinar singular com singular, plural com plural, e por aí vai - afirma.

A Moderna Gramática Portuguesa (Lucerna, 1999), de Evanildo Bechara, admite a distância entre sujeito e verbo na concordância, mas como concessão a autores de prestígio: "Se houver, entretanto, distância suficiente entre o sujeito e o verbo e se quiser acentuar a ideia de plural do coletivo, não repugnam à sensibilidade do escritor exemplo(s) como o(s) seguinte(s): Começou então o povo a alborotoar-se, e pegando do desgraçado cético o arrastaram até o meio do rossio e aí o assassinaram, e queimaram, com incrível presteza  (Alexandre Herculano)".

Artificial
Ataliba defende que a modalidade falada é mais rica que a escrita, e a linguagem popular é mais criativa por não estar pautada pela escola. Em contrapartida, a culta vincula-se a uma tradição de séculos.

- Quando terminadas as gravações do Nurc, em 1978, os estudos tomaram dois rumos. Um foi o estudo de pragmática do uso da língua, uma análise da conversação das pessoas. A outra vertente foi criar uma gramática da oralidade - conta Castilho.

O grupo responsável pela gramática passou vinte anos debruçado sobre como são compostos os textos, como a língua falada se organiza, a constituição de sentenças e a relação entre palavras e sons.

- Até liquidarem essa agenda, de 1988 a 2000, foram feitos muitos ensaios, para a série Gramática do Português Falado, em oito volumes. Ensaios soltos, não se tratava de gramática ainda. Foi aí que veio o trabalho de consolidação. A partir de 2006 saiu a Gramática do Português Culto Falado no Brasil - diz o linguista.

Uso social
Por mais que os estudos apontem para a flexibilidade da concordância na fala, ela é alvo de discriminação dos falantes que não harmonizam as flexões. Um exemplo é o bordão "é nóis", comum nos grandes centros, de tal popularidade que virou pretexto para um anúncio publicitário da Volkswagen, em que o humor é extraído de um técnico alemão que usa a forma como padrão do idioma. A expressão, no entanto, tira sua força da transgressão às normas, seja pela forma corrupta do pronome "nós", seja pela concordância equívoca.

Há gramáticos que contestam as represálias contra tropeços que ridicularizam o falante. Como o clássico "a gente vamos", em que há pluralização do predicado de um coletivo absoluto. O português Vasco Botelho de Amaral, em Glossário de Dificuldades do Idioma Português (Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947), defende como legítima a tendência popular de concordância mais pela ideia do que pela palavra, numa ordem mais semântica que apenas sintática. Usada com valor de "nós", diz Amaral, uma expressão com significação coletiva, sem determinação partitiva ou de gênero, como "a gente", é por vezes unida a um predicado no plural da 1ª pessoa. Daí "a gente vamos".

Considerado uma irregularidade, o caso pode ser mais comum do que se imagina, mesmo na literatura. Em Os Lusíadas, de Camões (capítulo I, 38), há ocorrência de "a gente padeçam":

"Se esta gente que busca outro Hemisfério, / Cuja valia e obras tanto amaste, / Não queres que padeçam vitupério..."
Mais do que linguisticamente aberrante, tal tipo de ocorrência é socialmente condenada, e o será por muito tempo.

A depender da situação comunicativa, a falta de concordância na escrita é exceção por vezes aceita por gramáticos tradicionais, mas só na literatura. Na fala, nem toda falta de concordância causa escândalo. Na escrita, em que ela pode pôr em jogo a clareza e a fluência de um texto, bem maior é o risco de estigmatizar aquele que o enuncia.



Escrito por Prof. Jair Barbosa às 08h46
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