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Língua: um bem de todos
 


Deslizes de celebridade

Começo pelo óbvio, e gostaria que esta posição ficasse clara: erro de grafia é erro. As gramáticas e todos os instrumentos que se destinam a assegurar o cumprimento das regras de grafia - que, no nosso caso, são estabelecidas em lei - explicam quais as regras a seguir: quando se usam maiúsculas, hifens, ssscxccx, hgjtil, cedilha etc. Portanto, quem escreve "sena", referindo-se à cena de filme, novela ou peça teatral, cometeu um erro.

Dito isso, é preciso pensar sobre o que significa cometer um erro, em geral considerado evidência de pouca instrução, mas quase nunca analisado criteriosamente, para entender o quanto a relação entre letras e sons é complexa e quais os fatores que os condicionam. E sobre a verdadeira mania (escolar e social) que é a caça aos erros. Mais cruelmente, a caça às pessoas que cometem lapsos previsíveis e são tachadas de ignorantes ou disléxicas. 

São numerosas e demoradas as discussões sobre grafia. As comissões de especialistas consomem décadas para produzir uma proposta de sistema de escrita. Por que será que quase analfabetos se sentem autorizados a julgar a capacidade de pessoas que cometem erros ortográficos, sem demonstrar competência para a análise do sistema de escrita, análise que poderia explicar a natureza e a razão do erro, mostrando, muitas vezes, que se trata de problema banal, que uma canetada pode resolver? Consideremos o caso Sasha: a filha de Xuxa informou, pelo microblog twitter, que ia filmar uma "sena". Uma multidão de seguidores saiu a campo desqualificando a inteligência da menina pela troca de c por s. O curioso é que nenhum dos que se manifestaram se preocupou em analisar o grau de sofisticação intelectual que se exige para ser seguidor ou leitor das mensagens de Xuxa!

O caso Sasha
No episódio, o grave é que: 

a)  Xuxa (e Sasha) avise ao mundo sobre o que faz e deixe de fazer; 
b) numerosas pessoas (soube que foram 70 mil!) "altamente inteligentes (!)" leiam tais recados;
c) se deem ao trabalho de comentá-los; 
d) dado um erro, todos se arvorem em analistas da língua (sem se darem conta de que são o mais claro testemunho de que a coisa vai mal). Ah, havia UM erro de grafia no recado de Sasha! O resto estava certo - e ninguém viu.

Observem que não incluí "sena" entre as coisas graves. Porque um erro dessa ordem não é grave na escrita de pessoa dessa idade e experiência. Mas não é erro? É. Mas não grave. A avaliação da gravidade deve considerar um conjunto de critérios: idade e grau de escolaridade do escrevente; complexidade da relação som/letra; frequência da palavra; interferência da pronúncia (localidade, idade etc.). E nem menciono as possibilidades de segmentação alternativas que ocorrem em função de outros fatores (como juntar "ser humano" ou "se acha" em "serumano" e "siacha", casos explicáveis!).

Um termo como "cena" não oferece dificuldade. Bem menos que "exceto", "salsicha" ou expressão que antes tinha, agora não tem ou talvez continue tendo hífen. O erro de Sasha não ocorre em segmento com pronúncias variáveis ("menino" pode provocar grafias como "mininu"; "maldade" vira "maudade"). Como está filmando (talvez o erro seja este!), o termo "cena" deveria ser-lhe familiar (mas nunca se sabe!). Ou seja: a palavra é fácil, boa para condenar o escrevente, para divertir-se com seu erro, mesmo se ele for uma criança. 

Houve muitos equívocos na avaliação do episódio. Bom exemplo é o de Ruy Castro (Folha de S.Paulo, 5/9/09), que escreveu que Sasha "queria dizer 'cena'". Ora, ela não queria dizer, ela queria escrever "cena" (afinal, "cena" e "sena" são ditas do mesmo jeito). O erro de Castro é mais grave que o de Sasha, até porque ele tem mais de 11 anos! 

Nossa cultura dá valor excessivo à grafia, elevada a símbolo de domínio da língua. Mas, a rigor, erro de grafia nem é erro de português. É só de escrita, desobediência a uma lei que não é lei da língua, tanto que pode ser alterada pelo governo. É de natureza diferente dos erros de sintaxe ou de semântica. Graves mesmo são textos precários ou sem sentido. Se consultarmos textos de várias épocas, veremos que são grafados de maneiras diferentes. Poderíamos tratar os textos grafados de forma "ilegal" da forma como tratamos os de outras épocas: como textos que precisam de revisão. O erro de grafia não é, por si, prova de falta de domínio da escrita. É sintoma, não se pode duvidar. Mas não é a verdadeira doença.

A consulta a livros que analisam escritas populares mostra que a diversidade de escrita não impede o exercício de muitas das funções da linguagem. Em especial na escola, seria necessário clareza sobre as razões que levam a erros de grafia. Há razões linguísticas para eles. Muitas são ligadas à inconsistência do próprio sistema ortográfico (como diversas grafias do fonema /s/). Outras são ligadas à variação linguística (como as que levam a ter problemas para decidir entre "mau" e "mal"). Mas há diversas interpretações de "unidades de fala", cuja análise está longe de ser óbvia a quem não domina o léxico erudito e referências culturais mais sofisticadas do que as disponíveis na escola e na TV.

Os professores deveriam ser capazes de entender de onde vieram os erros. Assim, seria mais fácil decidir como proceder para evitá-los. Se um aluno escreve "táquissi" ou "séquisso", não basta rir ou mandar corrigir. Seria bom compreender que se trata de fato relativo à pronúncia de sílabas terminadas (na fala) em oclusivas (sek-so, tak-si), que são acrescidas de vogal (e que explica porque dizemos "futebol" e "esnobe", não "futbol" e "(e)snob").

Sírio Possenti é professor associado do departamento de linguística da Unicamp e autor de Os humores da Língua (Mercado de Letras)



Escrito por Prof. Jair Barbosa às 11h36
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Discussão RRPP/UFAL 2º PERÍODO

Caros alunos de RRPP, 

Vivemos na era da Comunicação. Cada vez mais precisamos interagir, trocar ideias, expor o nosso ponto de vista... Com base nos textos de Blikstein (1988) e Citelli (2005), discuta a importância da Comunicação e da Persuasão na sociedade atual.



Escrito por Prof. Jair Barbosa às 15h33
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Caros alunos e amigos,

Há muito tempo penso em fazer um blog para propagar ideias e conteúdos importantes sobre a língua portuguesa. Em função do meu restrito tempo, adiei isso bastante, mas agora vamos sair das ideias...

Em primeiro lugar, quero explicar o título deste blog. Diferentemente do que é recorrentemente veiculado na mídia, não entendo a língua como um bem de poucos, de alguns "iluminados" que a conhecem de modo profícuo a ponto de humilhar a nós, probres mortais, com "todas" as regras na ponta da língua. Para mim, a língua é um bem que pertence a toda a sociedade - do analfabeto ao doutor. Sob este aspecto, há de se considerar que as línguas variam, que não existe forma de falar melhor que outra, tampouco que há línguas primitivas, pobres, erradas, feias... São todos julgamentos sem qualquer fundamento científico, portanto, infundados. Sua base são os preconceitos social e linguístico, por consequência.

Destarte, todas as formas de uso da língua têm a sua validade dentro da sociedade e devem ser respeitadas. Com isso, não defendemos que não se precisa aprender a variante padrão da língua, aquela pregada pela escola. A chamada norma-padrão é detentora de grande prestígio social, é papel da escola ensiná-la, porém constitui uma  dentre tantas outras possibilidades de uso da língua.

Assim, não é a gramática escolar ou os gramáticos que vão impor o modo de usar língua, mas sim o seu contexto de uso. Se nos dirigimos a pessoas com as quais temos intimidade, naturalmente falamos de modo mais espontâneo, sem artificialismos; se estamos apresentando um seminário ou dando uma entrevista, procuramos atingir o nosso público-alvo e, portanto, temos que adequar a nossa forma de falar a esse público; se estamos no MSN com nossos colegas de trabalho ou de classe, certamente, tornar-se-ia ridículo usar uma mesóclise ou mesmo escrever por extenso todas as palavras, uma vez que o estilo deste importante meio de comunicação visa à rapidez e à informalidade.

Portanto, meus caros, a língua é nossa! É viva, dinâmica como a sociedade o é. Não cabe em camisa de forças. Porém, como nos ensina o filólogo Evanildo Bechara, "devemos ser poliglotas na nossa própria língua", ou seja, devemos ser usuários competentes, termos clareza acerca do que falamos e, sobretudo, entendermos que em cada situação devemos nos comportar linguisticamente diferente, como, aliás, já fazemos, por exemplo, com a nossa vestimenta. O acesso a essa competência tem como mecanismo mais eficiente a leitura.

É isso!

 

Um abraço,

 

Jair Barbosa



Escrito por Prof. Jair Barbosa às 16h59
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O desvio da concordância

A falta de harmonia entre as flexões de um enunciado deixa de ser atributo de pessoas com baixa escolaridade, e muitos já a toleram na língua falada

Edgard Murano

Questionado sobre a sobreposição dos pronomes "tu" e "você" em seus textos, Nelson Rodrigues certa vez disparou: "Não acredito em brasileiro sem erro de concordância". Hoje, à luz dos mais recentes estudos sobre a língua, aquilo que o dramaturgo chamava de "erro" passou a ser considerado, antes, sinal de influência da fala sobre a escrita, não mera desobediência à gramática. Mas ainda incomoda muita gente.

Ao pé da letra, o que chamamos "concordância" é o princípio sintático segundo o qual as palavras dependentes umas das outras numa frase se harmonizam nas suas flexões. Adjetivos, pronomes, artigos e numerais concordam em gênero (feminino e masculino) e número (singular e plural) com os substantivos, numa "concordância nominal". Já o verbo concorda com seu sujeito em número e pessoa. É o que gente do ramo chama de "concordância verbal".

A questão, no entanto, é que a falta de concordância parece ter deixado de ser mero sinal de desvio gramatical ou de baixa escolaridade, e é duvidoso que em algum momento tenha sido atributo exclusivo das camadas mais pobres do país.
A evidência empírica dessa constatação é relativamente recente, mas categórica. O professor Ataliba de Castilho, da USP, foi um dos artífices do projeto Norma Urbana Culta (Nurc), que gravou 1.500 horas de falas em cinco capitais brasileiras, entre 1970 e 1978. A partir desse corpus de pesquisa, Ataliba e uma equipe de especialistas chegaram ao século 21 tendo percebido que muito do que se prega sobre concordância não passa de mito, marcado por artificialidades e juízos de valor.

Lapso
Segundo Ataliba, a ideia de que o verbo concorda com o sujeito nem sempre se aplica, mesmo pela elite bem formada no idioma.

- Na linguagem falada culta, o sujeito concorda quando vem antes do verbo. Quando vem depois, não ocorre com frequência. Se o verbo está no começo da sentença e o sujeito, no fim, com muitas ideias entre um e outro, ela não se observa.

O brasileiro, sugere Ataliba, tende a falar "chegou" e não "chegaram" num exemplo como: "Chegou, depois de muita espera, reclamação e teimosia de minha parte, os exemplares do jornal que eu estava esperando".

- Mesmo a pessoa culta já cancela esse tipo de concordância em uma conversa - constata o pesquisador.

Categórico
O professor acredita ser impossível postular regras de concordância categóricas para a variante brasileira do idioma.
Encarando só o fato semântico, nada no sistema do idioma impediria a flexibilidade na concordância em situações de comunicação informal. Se alguém diz, numa conversa, "os menino saiu" ou "os meninos saíram", o significado é o mesmo, não muda. Ocorre que, no português escrito e baseado na norma, a concordância se dá de forma repetitiva em quase todo elemento; mas, no registro oral, a regra costuma ser mais econômica e flexível. Na forma tida como "popular", em "os menino saiu depressa", só o primeiro elemento (o artigo "os") está marcado pelo plural.

Para Ataliba, em outras línguas esse procedimento já virou padrão. O francês culto passou a pôr plural só no artigo, não em todas as formas da sentença. Incorporou a regra popular e hoje é comum dizer que "les homme froid" ("os homem frio"). Em inglês, não há espanto se alguém pronuncia "the bad boys" (os meninos mau). Vários casos do gênero se instauraram mesmo nas variantes escritas em idiomas do mundo inteiro.

Os problemas envolvendo concordância talvez sejam o mais evidente exemplo brasileiro de que um idioma é, acima de tudo, fato social: mesmo quando linguisticamente o "erro" não contraria a índole da língua, mesmo se há evidências de que o brasileiro cancela a regra em sua fala, é alto o peso social no modo como os falantes encaram o problema.

Para Maria Helena de Moura Neves, do Mackenzie e da Unesp de Araraquara, muito do que se diz sobre concordância em cartilhas e manuais é posto só em termos de regras a ser obedecidas.

- Há um conjunto de normas instituídas que regem o domínio do que se considera a "norma padrão". E em poucos casos são admitidas realizações variantes - diz a professora.

Com deslizes de concordância não parece haver distinção de classe e nem seria preciso puxar a memória para lembrar José Sarney, presidente do Senado, em um de suas defesas no episódio dos atos secretos, nomeações e gastos na calada da noite, sem assinatura oficial. "Não há atos nenhum que não estão na rede", emendou o senador.

Registro oral
Um escorregão gramatical de uma figura pública ganha relevo, muitas vezes desproporcional ao tropeço. Mas equívoco como o de Sarney, escancarado em jornais de grande circulação, ilustra como são maleáveis as regras de concordância na fala, em relação às impostas pela escrita.

Segundo Maria Luiza Braga, professora de linguística da UFRJ, a probabilidade de que essas "falhas" ocorram é maior no registro oral do que no escrito.

- A escrita tem mais prestígio. Quando você escreve um documento, por exemplo, é algo permanente, e você controla o que escreve, pois tem mais tempo para adequar sua produção linguística às regras gramaticais - justifica.

A pesquisadora vê na fala um terreno propício à falta de concordância, sobretudo em situações-limite como a do político que se defende publicamente de acusações.

Instabilidade
Gramáticas normativas dizem que o verbo deve concordar com seu sujeito. Porém, mais de um fator intervém na regra, a maioria ligada à relação do falante com o que é enunciado. Maria Helena cita três circunstâncias em que a concordância é ameaçada:

1) Sujeito posposto - Quando vem primeiro o verbo e, mais adiante, o sujeito, há independência maior da forma do verbo em relação à forma do sujeito, o qual só depois é expresso pelo falante. "Na ocasião também foi comemorado os 28 anos da agência gaúcha." "Foram recolhidos o que sobrou da explosão."

2) Distância entre verbo e sujeito - Com o desligamento formal entre os dois componentes, fica criado um ambiente propício a uma concordância mais ligada à ideia do que propriamente à forma.
"A nova geração de jovens de nível universitário da década de 1950 acreditou que a canção tradicional tinha esgotado as suas possibilidades, e partiram para a reformulação de inspiração jazística do samba, que se chamaria bossa-nova."

3) Marca de singular num sujeito plural - Pode sugerir um singular para o verbo, isto é, a quebra de uma regra de concordância leva à quebra de outra: "Meus irmãos sabe."

Neste caso, diz Maria Helena, o processamento natural da linguagem leva o falante a marcar o plural na primeira palavra, desobrigando-o de marcá-lo nas seguintes.

- Ainda é frequente encontrarmos em falas que não possuam concordância até duas marcas seguidas de plural, e essa marcação dupla ocorre se essas duas primeiras palavras funcionam em bloco [(os meus) irmão]. Para o falante, com a primeira marca de plural, o recado sobre o número gramatical já está dado - explica Maria Helena.

Distâncias
Para o dicionarista Francisco Borba, da Unesp de Araraquara, quanto maior a quantidade de termos e intercalações a separar sujeito e verbo numa oração, maior a ausência das marcas de concordância.

- Esses expedientes sintáticos que dão coesão e disciplina gramatical, eles vigoram na língua escrita, que é mais disciplinada. Quando a pessoa está falando, e está fazendo um sujeito composto longo demais e depois põe o verbo, isso pode atrapalhar. Quanto mais comprida a sequência e mais distante o sujeito do verbo, maior a possibilidade de haver um lapso, de não combinar singular com singular, plural com plural, e por aí vai - afirma.

A Moderna Gramática Portuguesa (Lucerna, 1999), de Evanildo Bechara, admite a distância entre sujeito e verbo na concordância, mas como concessão a autores de prestígio: "Se houver, entretanto, distância suficiente entre o sujeito e o verbo e se quiser acentuar a ideia de plural do coletivo, não repugnam à sensibilidade do escritor exemplo(s) como o(s) seguinte(s): Começou então o povo a alborotoar-se, e pegando do desgraçado cético o arrastaram até o meio do rossio e aí o assassinaram, e queimaram, com incrível presteza  (Alexandre Herculano)".

Artificial
Ataliba defende que a modalidade falada é mais rica que a escrita, e a linguagem popular é mais criativa por não estar pautada pela escola. Em contrapartida, a culta vincula-se a uma tradição de séculos.

- Quando terminadas as gravações do Nurc, em 1978, os estudos tomaram dois rumos. Um foi o estudo de pragmática do uso da língua, uma análise da conversação das pessoas. A outra vertente foi criar uma gramática da oralidade - conta Castilho.

O grupo responsável pela gramática passou vinte anos debruçado sobre como são compostos os textos, como a língua falada se organiza, a constituição de sentenças e a relação entre palavras e sons.

- Até liquidarem essa agenda, de 1988 a 2000, foram feitos muitos ensaios, para a série Gramática do Português Falado, em oito volumes. Ensaios soltos, não se tratava de gramática ainda. Foi aí que veio o trabalho de consolidação. A partir de 2006 saiu a Gramática do Português Culto Falado no Brasil - diz o linguista.

Uso social
Por mais que os estudos apontem para a flexibilidade da concordância na fala, ela é alvo de discriminação dos falantes que não harmonizam as flexões. Um exemplo é o bordão "é nóis", comum nos grandes centros, de tal popularidade que virou pretexto para um anúncio publicitário da Volkswagen, em que o humor é extraído de um técnico alemão que usa a forma como padrão do idioma. A expressão, no entanto, tira sua força da transgressão às normas, seja pela forma corrupta do pronome "nós", seja pela concordância equívoca.

Há gramáticos que contestam as represálias contra tropeços que ridicularizam o falante. Como o clássico "a gente vamos", em que há pluralização do predicado de um coletivo absoluto. O português Vasco Botelho de Amaral, em Glossário de Dificuldades do Idioma Português (Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947), defende como legítima a tendência popular de concordância mais pela ideia do que pela palavra, numa ordem mais semântica que apenas sintática. Usada com valor de "nós", diz Amaral, uma expressão com significação coletiva, sem determinação partitiva ou de gênero, como "a gente", é por vezes unida a um predicado no plural da 1ª pessoa. Daí "a gente vamos".

Considerado uma irregularidade, o caso pode ser mais comum do que se imagina, mesmo na literatura. Em Os Lusíadas, de Camões (capítulo I, 38), há ocorrência de "a gente padeçam":

"Se esta gente que busca outro Hemisfério, / Cuja valia e obras tanto amaste, / Não queres que padeçam vitupério..."
Mais do que linguisticamente aberrante, tal tipo de ocorrência é socialmente condenada, e o será por muito tempo.

A depender da situação comunicativa, a falta de concordância na escrita é exceção por vezes aceita por gramáticos tradicionais, mas só na literatura. Na fala, nem toda falta de concordância causa escândalo. Na escrita, em que ela pode pôr em jogo a clareza e a fluência de um texto, bem maior é o risco de estigmatizar aquele que o enuncia.



Escrito por Prof. Jair Barbosa às 08h46
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A Importância da Leitura

A prática da leitura se faz presente em nossas vidas desde o momento em que começamos a “compreender” o mundo à nossa volta. No constante desejo de decifrar e interpretar o sentido das coisas que nos cercam, de perceber o mundo sob diversas perspectivas, de relacionar a realidade ficcional com a que vivemos, no contato com um livro, enfim, em todos estes casos estamos, de certa forma, lendo – embora, muitas vezes, não nos demos conta.

A atividade de leitura não corresponde a uma simples decodificação de símbolos, mas significa, de fato, interpretar e compreender o que se lê. Segundo Angela Kleiman, a leitura precisa permitir que o leitor apreenda o sentido do texto, não podendo transformar-se em mera decifração de signos linguísticos sem a compreensão semântica dos mesmos.

Nesse processamento do texto, tornam-se imprescindíveis também alguns conhecimentos prévios do leitor: os linguísticos, que correspondem ao vocabulário e regras da língua e seu uso; os textuais, que englobam o conjunto de noções e conceitos sobre o texto; e os de mundo, que correspondem ao acervo pessoal do leitor. Numa leitura satisfatória, ou seja, na qual a compreensão do que se lê é alcançada, esses diversos tipos de conhecimento estão em interação. Logo, percebemos que a leitura é um processo interativo.

Quando citamos a necessidade do conhecimento prévio de mundo para a compreensão da leitura, podemos inferir o caráter subjetivo que essa atividade assume. Conforme afirma Leonardo Boff,

cada um lê com os olhos que tem. E interpreta onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender o que alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é a sua visão de mundo. Isto faz da leitura sempre um releitura. [...] Sendo assim, fica evidente que cada leitor é co-autor.

A partir daí, podemos começar a refletir sobre o relacionamento leitor-texto. Já dissemos que ler é, acima de tudo, compreender. Para que isso aconteça, além dos já referidos processamento cognitivo da leitura e conhecimentos prévios necessários a ela, é preciso que o leitor esteja comprometido com sua leitura. Ele precisa manter um posicionamento crítico sobre o que lê, não apenas passivo. Quando atende a essa necessidade, o leitor se projeta no texto, levando para dentro dele toda sua vivência pessoal, com suas emoções, expectativas, seus preconceitos etc. É por isso que consegue ser tocado pela leitura.

Assim, o leitor mergulha no texto e se confunde com ele, em busca de seu sentido. Isso é o que afirma Roland Barthes, quando compara o leitor a uma aranha:

[...] o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura -, o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia.

Dessa forma, o único limite para a amplidão da leitura é a imaginação do leitor; é ele mesmo quem constrói as imagens acerca do que está lendo. Por isso ela se revela como uma atividade extremamente frutífera e prazerosa. Por meio dela, além de adquimirmos mais conhecimentos e cultura – o que nos fornece maior capacidade de diálogo e nos prepara melhor para atingir às necessidades de um mercado de trabalho exigente -, experimentamos novas experiências, ao conhecermos mais do mundo em que vivemos e também sobre nós mesmos, já que ela nos leva à reflexão.

E refletir, sabemos, é o que permite ao homem abrir as portas de sua percepção. Quando movido por curiosidade, pelo desejo de crescer, o homem se renova constantemente, tornando-se cada dia mais apto a estar no mundo, capaz de compreender até as entrelinhas daquilo que ouve e vê, do sistema em que está inserido. Assim, tem ampliada sua visão de mundo e seu horizonte de expectativas.

Desse modo, a leitura se configura como um poderoso e essencial instrumento libertário para a sobrevivência do homem.

Há entretanto, uma condição para que a leitura seja de fato prazerosa e válida: o desejo do leitor. Como afirma Daniel Pennac, “o verbo ler não suporta o imperativo”. Quando transformada em obrigação, a leitura se resume a simples enfado. Para suscitar esse desejo e garantir o prazer da leitura, Pennac prescreve alguns direitos do leitor, como o de escolher o que quer ler, o de reler, o de ler em qualquer lugar, ou, até mesmo, o de não ler. Respeitados esses direitos, o leitor, da mesma forma, passa a respeitar e valorizar a leitura. Está criado, então, um vínculo indissociável. A leitura passa a ser um imã que atrai e prende o leitor, numa relação de amor da qual ele, por sua vez, não deseja desprender-se.


Maria Carolina
Professora de Língua Portuguesa



Escrito por Prof. Jair Barbosa às 17h44
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Olá, pessoal!

Criei esta importante ferramenta para postar materiais de minha autoria ou não acerca da Língua Portuguesa. Entendo-a como um bem social, portanto, bem de todos nós e não apenas de uma meia dúzia de seres iluminados que "sabem português". Os cometários e sugestõs são bem-vindos.

Espero, sinceramente, contribuir de alguma forma para a ruptura de alguns preconceitos acerca da Língua, bem como para uma reflexão crítica sobre os fenômenos linguísticos em geral. Desta forma, aqui não será espaço para "dicas de português", mas de pensar a Língua como objeto dinâmico, heterogêneo e variável, não cabível em camisa de força ou em dicas do tipo "não erre mais".

Abraço,

 

Jair Barbosa



Escrito por Prof. Jair Barbosa às 17h15
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